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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O dossiê


Ainda a manhã tinha os olhos colados com ramela quando João Murídeo, o rato, entrou, ladino e decidido.

O gabinete, amplo e luxuoso, cheirava a lavanda e Murídeo torceu o pontiagudo nariz às mordomias do presidente. Que porcalhão! pensou contrafeito. Cai-lhe bem o adjetivo, ao Presidente da ARCUJA, Associação Recreativa e Cultural do Jardim.

Trepou pela perna direita da secretária, a que ficava do lado de dentro, seja do lado da poltrona, como lhe tinha dito o Secretário das Forças da Ordem. Logrou entrar, sem grande esforço, pelo buraco da fechadura da gaveta inferior e procurou o dossiê do fundo, o que tinha a etiqueta “Luvas da toupeira marinha”.

Quando soube o nome do dossiê achou estranha a parte das luvas. Que se soubesse uma toupeira marinha era um navio que se desloca debaixo de água, construído em ferro. Ora, assim sendo, as luvas não vinham ao caso porque tal toupeira não tem mãos nem patas. Luvas para quê? Insondável matéria politiqueira.

Meteu-se por baixo das pastas e começou a puxar a última, a tal das luvas e conseguiu deslocá-la cerca de cinco centímetros. Complicava-se o caso porque a pasta era volumosa e pesada. Com grande esforço conseguiu arrastá-la um pouco mais e iniciou, sem demoras, a tarefa de roer.

A ordem que recebera do secretário era no sentido de roer todo o dossiê, que não ficasse uma ponta de papel intacta, tudo tinha que ser destruído como só os ratos o sabem fazer. O lixo que restasse da tarefa podia lá ficar, não havia problema, o presidente haveria de ficar danado com os ratos e, de imediato, ordenaria uma ampla desratização do palácio – se bem o conhecia. O que, do ponto de vista do secretário, de nada adiantaria porque a pedra no seu ministerial sapato estaria removida.

Murídeo, no entanto, tinha outros planos. A Rosinha Musaranha estava de esperanças e ele tinha que aprontar uma cama condigna para ela e para a ninhada. A roedura do dossiê vinha mesmo a calhar. Com uma cajadada matava dois coelhos. Porra! que estultícia pensar agora no seu primo de quem – não se pode dizer que admirasse – gostaria de ter herdado o corpanzil. A questão era saber se, com aquele mísero corpo, conseguiria transportar tanto papelinho desfeito para a toca. Confiava, no entanto, que conseguiria dar a volta ao caso. Não fosse ele um rato!

Bem, o importante agora era cumprir a tarefa de que fora incumbido e, depois, integrá-la no seu projeto de família. Roeu com mais afinco.

Ao fim de duas horas estava tudo ruído, sem ponta de papel legível. Olhou para a sua obra, radiante. Recostou-se na parede da gaveta e descansou um pouco. Estava sequioso, saiu e descobriu um copo com água pelo meio, abandonado numa ponta da secretária. Olhou para ele e a sede aumentou quando descobriu que era extremamente perigoso entrar no copo. Corria o perigo de não conseguir de lá sair.

Chegara, então, a parte sua da tarefa. Encheu as bochechas com pedacinhos de papel até não poder mais e iniciou o transporte para a toca. Ah! como a Rosinha iria ficar contente.

Quando os primeiros raios de sol entraram no gabinete estava Murídeo a transportar a última parcela de sumaúma. Colocou-a na parte da toca onde estava o restante e voltou ao gabinete. Na rua iniciava-se o corrupio dos funcionários e ele apressou-se, embora soubesse que era, ainda, muito cedo para o presidente. Contemplou a arena onde decorrera o combate e achou que estava tudo perfeito. Tivera o cuidado de deixar alguns pedacinhos de papel na gaveta e um indelével rasto que marcava o trajeto dentro do gabinete. Aí terminavam os indícios. Fora do gabinete não havia a menor ponta de papelada, para que não fosse descoberta a sua toca.

O secretário das forças da ordem ficou radiante com o trabalho, embora inicialmente tivesse colocado algumas reticências quanto ao aproveitamento da papelada. Queria que fosse inequívoco, para o presidente, que o dossiê desaparecera por roedura. No entanto, com as explicações de Murídeo, aquiesceu que, efetivamente, estava contente e feliz com o resultado.

Ao presidente ia-lhe dando um treco quando abriu a gaveta da secretária. Convocou a imprensa e a rádio para comunicar ao país que desaparecera do seu gabinete um dossiê de extrema importância, ruído por ratos. Comunicou, também, que iria ordenar uma completa desratização do palácio e que os responsáveis iriam ser severamente punidos. Em primeiro lugar os ratos, com a dita desratização, depois o pessoal da cozinha, por se desleixar com os restos de comida que atraiam ratos, a seguir o pessoal da limpeza, que não tomara atenção à existência de ratos no palácio. Com a própria esposa, a quem cabia a tarefa de trazer os serviçais obedientes e cumpridores, tataria em privado. No quarto de dormir.

O secretário riu-se com alarvia. Sempre queria ver os seus detratores continuarem a bater na tecla das luvas. Pegou na garrafa de uísque de malte, reserva, 50 anos, encheu o copo, colocou-lhe quatro pedras de gelo, agitou tudo e riu-se ainda mais alarvemente.

 

 

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